segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

SOBRE SOLIDÃO E SERMOS INTEIROS


Só estou neste mundo

Pontuem como bem entenderem essa frase. Embora adicionem uma vírgula ou alterem a ordem dos fatores, assim como na matemática, o produto há-de ser o mesmo. Em verdade, não seria redundante assumir os três sentidos possíveis.

Encontro-me hoje aqui, neste lugar que bem poderia ser qualquer outro, uma vez que o externo já não causa efeito algum sobre mim. Poderia estar caminhando pelas ruas de Paris, cujo teto de estrelas no outrora já parecera mais brilhante que o daqui; poderia estar em algum lugar à beira-mar, a ouvir o som das ondas que, no pretérito nem tão distante, a mim soava como se fosse Bach que estivesse dedilhando a água salgada; ou, ainda, estar no que já fora o reconfortante colo de uma mulher; mas, agora, todas essas possibilidades exercem, para ser honesto, pouca influência sobre mim. Apresentam-se como versões pouco melhores do que estar neste meu quarto, desarrumado, cheio de livros e com um certo odor de suor, que felizmente é meu. Só meu.

Encontro-me, e não só hoje, sozinho.

E antes que vocês perguntem-me se o faço por querer ou se sou um desgraçado completo que não consegue fazer com que os olhos delas brilhem por alguns segundos, digo apenas que, novamente, as cartas são plurais.

Eu quero estar sozinho. Gosto de estar. Dorme-se com mais conforto, lê-se um maior número de páginas, não há tanta aporrinhação e, ainda que haja filmes que queiramos compartilhar com alguém, ir ao cinema sozinho é uma tarefa das mais gratificantes. Não há preocupação com agendas, prazos, datas, horas, mensagens trocadas, regularidade com a qual devemos sonhar com a pessoa, pensar em presentes, palavras a dizer, palavras a não dizer, roupa com a qual que se deve vestir, roupa com a que não se deve vestir, sair no domingo, sair num dia chuvoso, ter de dizer que está tudo bem, fingir que o problema não é o outro, não poder pensar que seria melhor estar sozinho…

Ufa! Enfim, gosto de estar só.

A outra carta, o outro ás, a face do ônus, o revés do banco imobiliário ou, melhor dizendo, as desvantagens de estar sozinho também são evidentes: para ser simples, releia a enumeração acima. Fato é que são das mesmas coisas das quais reclamavámos que sentiremos falta. Não que gostemos de cumprir com horários, e sair de casa num dia chuvoso continua sendo chato (alguém realmente gosta disso?), mas cria-se algo que se perde ao não estar-se mais acompanhado: rotina. Ser só (e aqui já não estou dizendo estar só) faz com que possamos ser livres. Fazemos o que bem entendemos, dormimos na hora em que quisemos, lemos o tanto que nossos olhos permitem, saímos, sim, nos dias chuvosos, mas só achamos prazer nisso porque nós o fazemos sozinhos, pela nossa vontade. Não quero dizer com isso que exista em todos os casos algum tipo de ação ativa por parte do outro, mas negar a existência de certa coerção é tolice.

Acho necessário dizer o porquê da utilização do “ser” e não do “estar” no parágrafo anterior. Estar sozinho é diferente de sê-lo, isto é, encontrar-se num determinado momento sem a companhia física do outro (ou ainda num intervalo entre “este encontro” e o próximo) muito se diferencia de estar só. E a isso podemos também relacionar a coerção. A força coercitiva do outro sobre nós mostra-se com maior potência quando nos encontramos no mesmo lugar que a pessoa, mas, ainda que em menor grau, exerce, sim, seu poder nesses intervalos temporais em que o espaço dos dois difere-se. Explico: quando envolvidos com a pessoa da qual gostamos, tornamo-nos uma espécie de cerberus, o cão mitológico de três cabeças. Explico ainda melhor: passamos a enfocar as coisas sob três prismas diferentes: pensamos sob um prisma que é nosso (que inegavelmente sofre influência não só daquela pessoa, mas de todas as outras e de tudo que nos rodeia), sob um prisma que é do outro (o que ela faria? o que ela diria? como ela lidaria com isso?) e, também, sob um prisma interreflexivo (o que o outro pensaria de mim se eu viesse a fazer isso? ela aprovaria essa minha ação?). Temos, então, três cabeças e não mais uma.

Ser um cerberus não é de todo mal, mas pode tornar-se um verdadeiro inferno quando uma das cabeças tenta sobrepujar as outras. Aposto que bem o sabem qual delas acaba tendo maior voz, não? Conseguimos, muitas vezes até com uma qualidade satisfatória, ignorar o que vemos no nosso espelho. O que julgamos certo ou errado pode muito bem, com uma dose de autocompaixão ou despreocupação, ser ignorado. Porém não lidamos tão bem com o reflexo que o outro nos propõe. Seja demasiado para o bem (quando nos embelezam e fazem de nós verdadeiros espécimes idealizados), seja para o mal, não conseguimos lidar com a distorção do reflexo. Sentimo-nos desconfortáveis. Não nos encaixamos. É como tentar vestir um jeans, que pode ser mais largo ou mais apertado, mas que não sendo nosso número, faz sentirmo-nos deslocados. E, como resposta, tentamos mudar o que somos para alterar a imagem que esse espelho, por vezes mal intencionado e depreciativo, tenta fazer de nós.

Aí mora o perigo:

Ou não nos sentimos merecedores de tamanha devoção, ou nos achamos verdadeiras cartas fora do baralho.

O que devemos fazer então?, vocês me perguntam, e eu só posso responder: não sei, não tenho certeza.

O meu problema está, não em tentar me modificar, mas em negar essa possibilidade, por menor que seja tal modificação, para fazer com o reflexo melhore. Não. Sou irredutível. Sou exatamente o que sou. Não quero dizer com isso que sou insuportável, não maleável, não suscetível a mudanças, todavia não o faço com o propósito de alterar uma visão deturpada da menina de que gosto ou que gosta de mim (nem sempre há espaço para as duas coisas). Mudo, sim, mas o faço quando me sinto confortável, não-ameaçado. Enfim, quando quero. O problema, no meu caso, está em não querer. Ou melhor dizendo, está em não sentir-me seguro para. Quantas vezes eu saí e senti vontade de estar em casa lendo? Quantas palavras eu não disse e queria dizer? Em quantos dias eu queria falar com ninguém? Em nenhum. Eu parei de sair quando não queria fazê-lo; parei de ficar calado quando eu queria dizer; parei de obrigar-me a conversar quando eu só queria o silêncio. Não cobro também que se modifiquem para mim (e isso por vezes soa como não interesse. Um ultraje!). Isso de não mudar, claro, tem lá as suas consequências. E eu consigo arcar com elas, ainda que elas custem caro.

A minha pergunta agora é: mas por que deveriam custar tanto?

Não seria mais benéfico ao relacionamento se eu só falasse quando eu quisesse e ela pudesse fazer o mesmo? se nós saíssemos apenas quando quiséssemos e não por que já fazia algum tempo que não nos víamso? se conversássemos apenas quando tivéssemos algo a falar além de frivolidades?

Seria.

Aí está, para mim, o segredo para o relacionamento: não permitir ser fragmentado e não cobrar do outro que o seja.

Sejamos inteiros!

Consigamos ir sozinho aos cinemas, shows, eventos de família (porque tem gente que realmente não consegue dizer à tia que não arrumou uma namoradinha)!

Encontremos atividades das quais gostamos de fazer e podemos fazer sem a presência do outro, como ler, correr, escrever, comer e etc.

Cristalizemos o que pensamos e o que somos para que a cabeça a tomar a decisão, mesmo que o cerberus exista (e é saudável e bacana que ele exista), seja sempre a nossa.

Digamos para nós mesmos o que queremos e o que não queremos, o que podemos ou não podemos mudar, aonde queremos chegar e que não sairemos nos domingos chuvosos ao menos em casos especiais.

Quando realizarmos isso, estaremos prontos para nos relacionar.

Hoje, sim, estou só. E estou bem assim. Não me sinto a pessoa mais feliz do mundo, é verdade. Mas estou bem. Sei o que sou, o que não sou, o que quero e o que não quero e que odeio sair nos dias chuvosos e estou pronto para um relacionamento, mas estar pronto não significa que eu o queira agora. Enquanto não encontrar uma garota que seja inteira, não me sentirei confortável.

Sejamos inteiros!

Um quebra-cabeça é formado por muitas peças. O amor é formado por duas. Mas cada peça deve de ser inteira, sem que uma delas torne-se maior para compensar a pequenez da outra. Só assim, com cada peça inteira e entendendo que ela só é metade dentro do todo mas que é inteira dentro de si, o amor será completo.

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

NÃO SEI SENTIR O QUE SEI QUE DEVO SENTIR

Muitos são os sentimentos que, ainda que saibamos que devemos sentir, não sabemos como fazê-lo. Compaixão, amor, empatia, paixão e até mesmo ódio: não somos capazes de senti-los de todo, mesmo que venhamos nós a sentirmo-nos obrigados a tal. Há, porém, além desses exemplos todos e outros tantos que facilmente podem ser encontrados em nosso dia-a-dia, o exemplo que sempre se mostrou como a incógnita maior, a incongruência total e o paradoxo irreparável da minha vida: a saudade. 

Confesso: não sei lidar com a saudade.

É fato que, antes de tudo, devo tornar explícito um fato para que não haja qualquer possibilidade de má interpretação. Sou, ou acredito ser, capaz de lidar com a perda, mas não com a saudade. Perder é natural, orgânico, involuntário. Perdem-se células. Perdem-se fios de cabelos. Perdem-se horas e mais horas das horas que parecem muitas mas que são, em verdade, poucas. Perder é, portanto, um ato do mais corriqueiro. 

Onde habita, então, o problema? 

Respondo: no complemento dado à saudade. Não sentimos saudade das células, dos cabelos e nem mesmo das horas - claro que ficamos irritados quando gastamos tempo demais com pessoas que não agregam coisa alguma à nossa vida ou com páginas e mais páginas de conteúdo inútil na internet, mas há tantas horas, mesmo que poucas venham a nos parecer no tempo breve, que logo somos capazes de nos perdoar. 
O problema está no complemento, então. E os meus complementos, nominais, verbais e outros tantos que gramática alguma é capaz de cobrir, atormentam-me. 

Saudade da infância
Saudade da amiga que foi embora para o país dos 50 estados
Saudade da sensação da primeira leitura daquele livro favorito
Saudade da menina que conheci ontem
Saudade do que éramos
Saudade do que queríamos ser
Saudade do sonhar em ser astronauta
Saudade do ser astronauta, mesmo que no quintal de casa
Saudade do cão que ainda nem morreu mas que já sentimos a saudade
Saudade do pai
Saudade do não sentir saudade

(Não uso ponto final porque saudade é coisa sem fim e sem pausa. Sinto todas as saudades juntas, com o mesmo coração apertado e pequeno demais para tanta saudade).

Mas se você a sente, porque diz que não o sabe fazê-lo?
É porque não me permito sentir saudade.
Interrompo-a. Corto-a fora. Tiro o membro antes mesmo da gangrena começar. Corto a corda antes mesmo de tentar desfazer o nó de maneira a poder refazê-lo quando fosse possível e se possível fosse.

Da infância, busco lembrar-me do que foi ruim.
Da amiga, afastei-me antes da despedida, que nunca deixei que acontecesse,porque doloroso seria saber que com ninguém mais poderia eu identificar-me com tanta precisão.
Da sensação do livro favorito pela primeira vez, nego-me a reler e convenço-me de que o melhor é o livro que estou lendo no momento.
Da menina, penso que será loucura se ela souber que sinto saudade, mas eu sinto.
Do que éramos, tento acreditar que seremos melhores.
Do que queríamos ser, faço força para crer que éramos ingênuos, quando, em verdade, éramos muito sábios e sensatos.
Da quimera espacial, uso a internet e o novo filme do Nolan ou o já velho do Cuáron.
Do ser astronauta de quintal, recordo que havia mais ninguém a me chamar, dizendo: Houston, Houston!
Do cão, não lhe dou muita atenção para não doer ainda mais.
Do pai, apeguei-me à ideia de que foi melhor assim.
Do não sentir saudade, minto. Minto e sinto.

Sinto saudade. SAUDADE, garrafal, gritante, ecoante. 
Não aguento mais sentir o não-sentir. 
Mais que ter o coração de Drummond, que foi o maior do mundo - a oração é, sim, para causar dúvida sobre o que está realmente adjetivando -, queria ter os braços do tamanho do mundo, maior que o mundo, para abraçar a todos, até os que foram. 

Queria abraçar o mundo. Queria abraçar a coragem de dizer: eu sinto saudade.

domingo, 16 de novembro de 2014

QUANDO A VIDA IMITA O TÍTULO

Não quero começar isso com uma frase de efeito. 
Talvez seja essa justamente a que eu queira usar, mas não o sei. Nem jamais o saberei. Esse blog, que não há de ser um livro do Tolstói, deve iniciar suas atividades de modo simples, sem grandes frases, ordens indiretas, mesóclises a rodo (mas elas apresentar-se-ão). Singelamente, devo começar as atividades. Vamos a elas?

1. O porquê do título: Não que me sinta eu obrigado a dar resposta acerca do título dessa página, afinal, bem o sei que você também, se aqui se encontra por amar os livros, constantemente sente vontade de trocar pessoas chatas pelos amados não-pesos de papel. Por vezes, esses piolhos pubianos são tão maçantes que seríamos capazes de trocá-los até por um e-book ou por um exemplar do auto-ajuda n°1 da lista da Revista Veja.

2. Sobre o quê do blog: Nessa página (prefiro "nessa" e "essa" a outros porque isso aqui já é coisa velha na minha cabeça), eu hei de escrever sobre livros; hei de escrever sobre filmes; hei de escrever sobre séries; hei de escrever sobre escrever; hei de tomar coragem. Adianto, desde já, que sou volátil e esqueço nome de personagem assim que fecho o livro. Sabem por quê? Porque pessoas são chatas (nunca esqueço nome de personagem-animal [ou seria animal-personagem, Cubas?])

3. Quantos chatinhos vale o livro: Eis a unidade de medida a ser utilizada por mim para dizer-vos se aquele livro é supimpa ou carne de vaca. Só expressão bacanuda para expressar o quão legais são as pessoas que bem serviriam como esta moeda de troca:

1 chatinho: troque pelo livro aquele tio ou tia chatos.

2 chatinhos: troque pelo livro aquele vizinho chato que escuta música de gosto duvidoso e aquela pessoa chata que ainda envia-lhe apresentações motivacionais em powerpoint.

3 chatinhos: troque pelo livro aquele ser chato da sua faculdade/escola/trabalho que está sempre de bom humor às 7h da manhã; aquele que tenta passar uma dieta rica em fibras e sem glúten e aquela menina ou menino que resolvem excluir o facebook porque estão cansados das mídias sociais, justamente quando você quer iniciar um flerte.

4 chatinhos: troque pelo livro aquela quadrilha inteira que fica chamando-te para sair quando tudo que você quer é ficar em casa, lendo.

5 chatinhos: troque pelo livro cinco pessoas que já disseram para você alguma destas frases: "você não acha que gasta muito dinheiro com livro?" "você nunca vai ler todos esses livros que comprou" "eu até gosto de ler, mas eu fico com preguiça" "eu li (MENTIRA!), uma vez, que quem lê muito fica louco". E a pergunta bônus (a pessoa que fizer disser isto, por si só, já fica valendo "cinco chatinhos"): "por que ler se vai ter filme?"

Por hoje é isso, pessoal. Boas leituras e lembrem-se: sejam legais ou acabarão sendo trocados por livros.