sexta-feira, 21 de novembro de 2014

NÃO SEI SENTIR O QUE SEI QUE DEVO SENTIR

Muitos são os sentimentos que, ainda que saibamos que devemos sentir, não sabemos como fazê-lo. Compaixão, amor, empatia, paixão e até mesmo ódio: não somos capazes de senti-los de todo, mesmo que venhamos nós a sentirmo-nos obrigados a tal. Há, porém, além desses exemplos todos e outros tantos que facilmente podem ser encontrados em nosso dia-a-dia, o exemplo que sempre se mostrou como a incógnita maior, a incongruência total e o paradoxo irreparável da minha vida: a saudade. 

Confesso: não sei lidar com a saudade.

É fato que, antes de tudo, devo tornar explícito um fato para que não haja qualquer possibilidade de má interpretação. Sou, ou acredito ser, capaz de lidar com a perda, mas não com a saudade. Perder é natural, orgânico, involuntário. Perdem-se células. Perdem-se fios de cabelos. Perdem-se horas e mais horas das horas que parecem muitas mas que são, em verdade, poucas. Perder é, portanto, um ato do mais corriqueiro. 

Onde habita, então, o problema? 

Respondo: no complemento dado à saudade. Não sentimos saudade das células, dos cabelos e nem mesmo das horas - claro que ficamos irritados quando gastamos tempo demais com pessoas que não agregam coisa alguma à nossa vida ou com páginas e mais páginas de conteúdo inútil na internet, mas há tantas horas, mesmo que poucas venham a nos parecer no tempo breve, que logo somos capazes de nos perdoar. 
O problema está no complemento, então. E os meus complementos, nominais, verbais e outros tantos que gramática alguma é capaz de cobrir, atormentam-me. 

Saudade da infância
Saudade da amiga que foi embora para o país dos 50 estados
Saudade da sensação da primeira leitura daquele livro favorito
Saudade da menina que conheci ontem
Saudade do que éramos
Saudade do que queríamos ser
Saudade do sonhar em ser astronauta
Saudade do ser astronauta, mesmo que no quintal de casa
Saudade do cão que ainda nem morreu mas que já sentimos a saudade
Saudade do pai
Saudade do não sentir saudade

(Não uso ponto final porque saudade é coisa sem fim e sem pausa. Sinto todas as saudades juntas, com o mesmo coração apertado e pequeno demais para tanta saudade).

Mas se você a sente, porque diz que não o sabe fazê-lo?
É porque não me permito sentir saudade.
Interrompo-a. Corto-a fora. Tiro o membro antes mesmo da gangrena começar. Corto a corda antes mesmo de tentar desfazer o nó de maneira a poder refazê-lo quando fosse possível e se possível fosse.

Da infância, busco lembrar-me do que foi ruim.
Da amiga, afastei-me antes da despedida, que nunca deixei que acontecesse,porque doloroso seria saber que com ninguém mais poderia eu identificar-me com tanta precisão.
Da sensação do livro favorito pela primeira vez, nego-me a reler e convenço-me de que o melhor é o livro que estou lendo no momento.
Da menina, penso que será loucura se ela souber que sinto saudade, mas eu sinto.
Do que éramos, tento acreditar que seremos melhores.
Do que queríamos ser, faço força para crer que éramos ingênuos, quando, em verdade, éramos muito sábios e sensatos.
Da quimera espacial, uso a internet e o novo filme do Nolan ou o já velho do Cuáron.
Do ser astronauta de quintal, recordo que havia mais ninguém a me chamar, dizendo: Houston, Houston!
Do cão, não lhe dou muita atenção para não doer ainda mais.
Do pai, apeguei-me à ideia de que foi melhor assim.
Do não sentir saudade, minto. Minto e sinto.

Sinto saudade. SAUDADE, garrafal, gritante, ecoante. 
Não aguento mais sentir o não-sentir. 
Mais que ter o coração de Drummond, que foi o maior do mundo - a oração é, sim, para causar dúvida sobre o que está realmente adjetivando -, queria ter os braços do tamanho do mundo, maior que o mundo, para abraçar a todos, até os que foram. 

Queria abraçar o mundo. Queria abraçar a coragem de dizer: eu sinto saudade.

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