Só estou neste mundo
Pontuem como bem entenderem essa frase. Embora adicionem uma vírgula ou
alterem a ordem dos fatores, assim como na matemática, o produto há-de ser o
mesmo. Em verdade, não seria redundante assumir os três sentidos possíveis.
Encontro-me hoje aqui, neste lugar que bem poderia ser qualquer outro,
uma vez que o externo já não causa efeito algum sobre mim. Poderia estar caminhando
pelas ruas de Paris, cujo teto de estrelas no outrora já parecera mais
brilhante que o daqui; poderia estar em algum lugar à beira-mar, a ouvir o som
das ondas que, no pretérito nem tão distante, a mim soava como se fosse Bach
que estivesse dedilhando a água salgada; ou, ainda, estar no que já fora o reconfortante
colo de uma mulher; mas, agora, todas essas possibilidades exercem, para ser
honesto, pouca influência sobre mim. Apresentam-se como versões pouco melhores do
que estar neste meu quarto, desarrumado, cheio de livros e com um certo odor de
suor, que felizmente é meu. Só meu.
Encontro-me, e não só hoje, sozinho.
E antes que vocês perguntem-me se o faço por querer ou se sou um
desgraçado completo que não consegue fazer com que os olhos delas brilhem por
alguns segundos, digo apenas que, novamente, as cartas são plurais.
Eu quero estar sozinho. Gosto de estar. Dorme-se com mais conforto,
lê-se um maior número de páginas, não há tanta aporrinhação e, ainda que haja
filmes que queiramos compartilhar com alguém, ir ao cinema sozinho é uma tarefa
das mais gratificantes. Não há preocupação com agendas, prazos, datas, horas,
mensagens trocadas, regularidade com a qual devemos sonhar com a pessoa, pensar
em presentes, palavras a dizer, palavras a não dizer, roupa com a qual que se
deve vestir, roupa com a que não se deve vestir, sair no domingo, sair num dia
chuvoso, ter de dizer que está tudo bem, fingir que o problema não é o outro, não
poder pensar que seria melhor estar sozinho…
Ufa! Enfim, gosto de estar só.
A outra carta, o outro ás, a face do ônus, o revés do banco imobiliário
ou, melhor dizendo, as desvantagens de estar sozinho também são evidentes: para
ser simples, releia a enumeração acima. Fato é que são das mesmas coisas das
quais reclamavámos que sentiremos falta. Não que gostemos de cumprir com
horários, e sair de casa num dia chuvoso continua sendo chato (alguém realmente
gosta disso?), mas cria-se algo que se perde ao não estar-se mais acompanhado:
rotina. Ser só (e aqui já não estou dizendo estar só) faz com que possamos ser
livres. Fazemos o que bem entendemos, dormimos na hora em que quisemos, lemos o
tanto que nossos olhos permitem, saímos, sim, nos dias chuvosos, mas só achamos
prazer nisso porque nós o fazemos sozinhos, pela nossa vontade. Não quero dizer
com isso que exista em todos os casos algum tipo de ação ativa por parte do outro,
mas negar a existência de certa coerção é tolice.
Acho necessário dizer o porquê da utilização do “ser” e não do “estar”
no parágrafo anterior. Estar sozinho é diferente de sê-lo, isto é, encontrar-se
num determinado momento sem a companhia física do outro (ou ainda num intervalo
entre “este encontro” e o próximo) muito se diferencia de estar só. E a isso
podemos também relacionar a coerção. A força coercitiva do outro sobre nós
mostra-se com maior potência quando nos encontramos no mesmo lugar que a
pessoa, mas, ainda que em menor grau, exerce, sim, seu poder nesses intervalos
temporais em que o espaço dos dois difere-se. Explico: quando envolvidos com a
pessoa da qual gostamos, tornamo-nos uma espécie de cerberus, o cão mitológico
de três cabeças. Explico ainda melhor: passamos a enfocar as coisas sob três prismas
diferentes: pensamos sob um prisma que é nosso (que inegavelmente sofre
influência não só daquela pessoa, mas de todas as outras e de tudo que nos
rodeia), sob um prisma que é do outro (o que ela faria? o que ela diria? como
ela lidaria com isso?) e, também, sob um prisma interreflexivo (o que o outro
pensaria de mim se eu viesse a fazer isso? ela aprovaria essa minha ação?).
Temos, então, três cabeças e não mais uma.
Ser um cerberus não é de todo mal, mas pode tornar-se um verdadeiro
inferno quando uma das cabeças tenta sobrepujar as outras. Aposto que bem o
sabem qual delas acaba tendo maior voz, não? Conseguimos, muitas vezes até com
uma qualidade satisfatória, ignorar o que vemos no nosso espelho. O que
julgamos certo ou errado pode muito bem, com uma dose de autocompaixão ou
despreocupação, ser ignorado. Porém não lidamos tão bem com o reflexo que o
outro nos propõe. Seja demasiado para o bem (quando nos embelezam e fazem de
nós verdadeiros espécimes idealizados), seja para o mal, não conseguimos lidar
com a distorção do reflexo. Sentimo-nos desconfortáveis. Não nos encaixamos. É
como tentar vestir um jeans, que pode ser mais largo ou mais apertado, mas que
não sendo nosso número, faz sentirmo-nos deslocados. E, como resposta, tentamos
mudar o que somos para alterar a imagem que esse espelho, por vezes mal
intencionado e depreciativo, tenta fazer de nós.
Aí mora o perigo:
Ou não nos sentimos merecedores de tamanha devoção, ou nos achamos
verdadeiras cartas fora do baralho.
O que devemos fazer então?, vocês me perguntam, e eu só posso responder:
não sei, não tenho certeza.
O meu problema está, não em tentar me modificar, mas em negar essa
possibilidade, por menor que seja tal modificação, para fazer com o reflexo
melhore. Não. Sou irredutível. Sou exatamente o que sou. Não quero dizer com
isso que sou insuportável, não maleável, não suscetível a mudanças, todavia não
o faço com o propósito de alterar uma visão deturpada da menina de que gosto ou
que gosta de mim (nem sempre há espaço para as duas coisas). Mudo, sim, mas o
faço quando me sinto confortável, não-ameaçado. Enfim, quando quero. O
problema, no meu caso, está em não querer. Ou melhor dizendo, está em não
sentir-me seguro para. Quantas vezes eu saí e senti vontade de estar em casa
lendo? Quantas palavras eu não disse e queria dizer? Em quantos dias eu queria
falar com ninguém? Em nenhum. Eu parei de sair quando não queria fazê-lo; parei
de ficar calado quando eu queria dizer; parei de obrigar-me a conversar quando
eu só queria o silêncio. Não cobro também que se modifiquem para mim (e isso
por vezes soa como não interesse. Um ultraje!). Isso de não mudar, claro, tem
lá as suas consequências. E eu consigo arcar com elas, ainda que elas custem
caro.
A minha pergunta agora é: mas por que deveriam custar tanto?
Não seria mais benéfico ao relacionamento se eu só falasse quando eu
quisesse e ela pudesse fazer o mesmo? se nós saíssemos apenas quando
quiséssemos e não por que já fazia algum tempo que não nos víamso? se
conversássemos apenas quando tivéssemos algo a falar além de frivolidades?
Seria.
Aí está, para mim, o segredo para o relacionamento: não permitir ser
fragmentado e não cobrar do outro que o seja.
Sejamos inteiros!
Consigamos ir sozinho aos cinemas, shows, eventos de família (porque tem
gente que realmente não consegue dizer à tia que não arrumou uma namoradinha)!
Encontremos atividades das quais gostamos de fazer e podemos fazer sem a
presência do outro, como ler, correr, escrever, comer e etc.
Cristalizemos o que pensamos e o que somos para que a cabeça a tomar a
decisão, mesmo que o cerberus exista (e é saudável e bacana que ele exista),
seja sempre a nossa.
Digamos para nós mesmos o que queremos e o que não queremos, o que
podemos ou não podemos mudar, aonde queremos chegar e que não sairemos nos
domingos chuvosos ao menos em casos especiais.
Quando realizarmos isso, estaremos prontos para nos relacionar.
Hoje, sim, estou só. E estou bem assim. Não me sinto a pessoa mais feliz
do mundo, é verdade. Mas estou bem. Sei o que sou, o que não sou, o que quero e
o que não quero e que odeio sair nos dias chuvosos e estou pronto para um
relacionamento, mas estar pronto não significa que eu o queira agora. Enquanto
não encontrar uma garota que seja inteira, não me sentirei confortável.
Sejamos inteiros!
Um quebra-cabeça é formado por muitas peças. O amor é formado por duas.
Mas cada peça deve de ser inteira, sem que uma delas torne-se maior para
compensar a pequenez da outra. Só assim, com cada peça inteira e entendendo que
ela só é metade dentro do todo mas que é inteira dentro de si, o amor será completo.
Ótimo texto! Parabéns!
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